domingo, 20 de março de 2011

O Conceito de Literatura Infantil

O Conceito de Literatura Infantil
O conceito de Literatura Infantil é bastante discutido entre os estudiosos do assunto. Há aqueles que defendem que é o objeto escolhido pelo seu próprio leitor, outros que é o objeto de formação de um agente transformador da sociedade e há até aqueles que questionam o fato de existir uma literatura infantil ou dela ser uma questão de estilo.
Temos abaixo algumas dessas idéias e também declarações de autores de literatura infantil para percebemos como essa é uma área conflitosa. Ver o objeto a partir de vários pontos de vistas pode nos ajudar a entender melhor e formularmos nosso próprio conceito.
"Literatura Infantil é todo o acervo literário eleito pela criança"
(Bárbara Vasconcelos Bahia)
"Literatura Infantil são os livros que têm a capacidade de provocar a emoção, o prazer, o entretenimento, a fantasia, a identificação e o interesse da criançada."
(Leo Cunha)
"A literatura, e em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola" (Nelly Novaes Coelho)
"O gênero literatura infantil tem, a meu ver, a existência duvidosa. Haverá música infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de se constituir alimento para o espírito da criança ou jovem e se dirige ao espírito adulto? "
(Carlos Drummond de Andrade)
"Se a falta é estrutural, e se não se vive sem a base fantasmática (o infantil que se atualiza), não seria possível afirmar que, em toda literatura, há esse infantil, ainda que menos ou mais encoberto? O infantil na literatura, que não se confunde, certamente, com a Literatura Infantil, tampouco com relatos de infância. Na particularidade de cada novo ato, a criança é quem escreve no adulto. E ela o faz com estilo - assinatura pontual, estilo portador de sujeito"
(Ana Maria Clark Peres)

"Escrevo porque gosto. Com meus textos, quero botar para fora algo que não consigo deixar dentro. E escrevo para criança porque tenho uma certa afinidade de linguagem. Mas não tenho intenção didática, não quero transmitir nenhuma mensagem, não sou telegrafista. Acredito que a função da obra literária é criar um momento de beleza através da palavra. ... Em momento algum eu acho que a linguagem deva ser simplificada. Em meus livros não há condescendência, tatibitate nem barateamento da linguagem. A colocação dos pronomes é consciente, a regência e a concordância são rigorosas. As rupturas são intencionais, têm uma função estilística. Acho essencial dominar uma gramática para domá-la a partir de uma linguagem nova."
(Ana Maria Machado)
"Escrevo para dizer o que penso. Quero reclamar de governos autoritários. Quero mostrar a existência de desigualdade entre o homem e a mulher. Não fujo muito de temas que, supostamente, não pertencem ao universo infantil.
Acho que todo mundo é capaz de aprender."
(Ruth Rocha)

O leitor: concepção de infância

Para pensar a literatura infantil é necessário pensar no seu leitor: a criança. Até o Século XVII as crianças convviam igualmente com os adultos, não havia um mundo infantil, diferente e separado, ou uma visão especial da infância. Não se escrevia, portanto, para as crianças.
"...a concepção de uma faixa etária diferenciada, com interesses próprios e necessitando de uma formação específica, só acontece em meio à Idade Moderna. Esta mudança se deveu a outro acontecimento da época: a emergência de uma nova noção de família, centrada não mais em amplas relações de parentesco, mas num núcleo unicelular, preocupado em manter sua privacidade (impedindo a intervenção dos parentes em seus negócios internos) e estimular o afeto entre seus membros" 1
A partir da Idade Moderna a criança é vista como um indivíduo que precisa de atenção especial e cuja é demarcada pela idade.
O adulto passa a idealizar a infância. A criança é o indivíduo inocente e dependente do adulto devido à sua falta de experiência da realidade. Até hoje muitos ainda têm essa concepção da infância como o espaço da alegria, da inocência e da falta de domínio da realidade. Os livros qeu trazem essa concepção são escritos, então, com o objetivo de educar e de ajudar as crianças a enfrentar a realidade.
A partir da Psicologia da Aprendizagem a infância é tratada como uma etapa de preparação do pensamento para a vida adulta. O pensamento infantil não tem ainda uma lógica racional. A literatura infantil é, nesta concepção, adequada às fases do raciocínio infantil (que é dividido em idade cronológica).
Essas duas concepções de infância convivem até hoje e podemos vê-las até no modo como os livros são selecionados e catalogados pelas editoras.
No entanto, uma outra concepção de infância tem sido defendida e com ela uma nova postura da literatura infantil. É preciso entender que a criança é também cheia de conflitos, medos, dúvidas e contradições não por desconhecer a realidade, mas por trazer em si a imagem projetada do adulto:
"Se a imagem da criança é contraditória, é precisamente porque o adulto e a sociedade nela projetam, ao mesmo tempo, suas aspirações e repulsas. A imagem da criança é, assim, o reflexo do que o adulto e a sociedade pensam de si mesmos. Mas este reflexo não é ilusão; tende, ao contrário, a tornar-se realidade. Com efeito, a representação da criança assim elaborada transforma-se, pouco a pouco, em realidade da criança. Esta dirige certas exigências ao adulto e à sociedade, em função de suas necessidades essenciais"2
Quanto ao seu desenvolvimento cognitivo, a ênfase não pode ser naquilo que a criança ainda não dá conta, mas sim naquilo que só ela é capaz de fazer.
"Se lhe falta a completa capacidade abstrativa que a capacite para as complexas redes analítico-conceituais, sobra-lhe espaço para a vasta mente instintiva, pré-lógica, inclusiva, integral e instantânea que só opera por semelhanças, correspondências entre formas, descobrindo vínculos de similitude entre elementos que a lógica racional condicionou a separar e a excluir. Correspondências, sinestesias. Todos os sentidos incluídos."3
Uma literatura que tenha essa concepção de infância vai, então, privilegiar "o lado espontâneo, intuitivo, analógico e concreto da natureza humana"4 e ver seu leitor como um ser de desejos e pensamentos próprios.
"...os projetos mais arrojados de literatura infantil investem, não escamoteando o literário, nem o facilitando, mas enfrentando sua qualidade artística e oferecendo os melhores produtos possíveis ao repertório infantil, que tem a competência necessária para traduzi-lo pelo desempenho de uma leitura múltipla e diversificada."5
Partindo dessa visão dá para entender a vertente que entende a literatura infantil como um estilo literário (dominante estilística), pois o objetivo não é falar para uma de terminada faixa etária, mas trabalhar o texto para preencher desejos que existem em todos os seres humanos.
Citações
1 - ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global Ed., 4ª ed., 1985. (página 13)
2 - ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global Ed., 4ª ed., 1985. (página 18)
3 - PALO, Mª José e OLIVEIRA, Mª Rosa D. Literatura Infantil - Voz de criança. SP: Ática, 1986. (pág.7)
4 - PALO, Mª José e OLIVEIRA, Mª Rosa D. Literatura Infantil - Voz de criança. SP: Ática, 1986. (pág.8)
5 - PALO, Mª José e OLIVEIRA, Mª Rosa D. Literatura Infantil - Voz de criança. SP: Ática, 1986. (pág.11)

A Literatura Infantil e a Escola
Como já foi dito, os primeiros livros infantis foram escritos por pedagogos e professores com o objetivo de estabelecer padrões comportamentais exigidos pela sociedade burguesia que se estabelecia.
A relação entre literatura e a escola é forte desde o início até hoje. Diversos estudiosos defendem o uso do livro em sala de aula, mas atualmente o objetivo não é transmitir os valores da sociedade e sim propiciar uma nova visão da realidade.
"... a escola é, hoje, o espaço privilegiado, em que deverão ser lançadas as bases para a formação do indivíduo. E, nesse espaço, privilegiamos os estudos literários, pois, de maneira mais abrangente do que quaisquer outros, eles estimulam o exercício da mente; a percepção do real em suas múltiplas significações; a consciência do eu em relação ao outro; a leitura do mundo em seus vários níveis e, principalmente, dinamizam o estudo e conhecimento da língua, da expressão verbal significativa e consciente - condição sine qua non para a plena realidade do ser." 1
"A literatura infantil torna-se, deste modo, imprescindível. Os professores dos primeiros anos da escola fundamental devem trabalhar diariamente com a literatura pois esta se constitui em material indispensável, que aflora a criatividade infantil e desperta as veias artísticas da criança. Nessa faixa etária, os livros de literatura devem ser oferecidos às crianças, através de uma espécie de caleidoscópio de sentimentos e emoções que favoreçam a proliferação do gosto pela literatura, enquanto forma de lazer e diversão" 2
Ainda assim podemos ver o sentido pedagógico atribuído à literatura infantil (estimular o exercício da mente, despertar a criatividade...). O que importa, entretanto, é ver que o livro pode ser um objeto para que a criança reflita sua própria condição pessoal (e a imagem projetada nela pelo adulto) e a sociedade em que vive.

O caráter literário na Literatura Infantil
A discussão se a literatura infantil é uma arte literária ou pedagógica passa pela concepção de infância e pela ligação da literatura infantil com a escola. Ainda não há consenso entre os estudiosos e a disciplina "Literatura Infantil" em algumas faculdades, por exemplo, é oferecida apenas na área de Educação e não na Letras.
Se observarmos a origem dos chamados "clássicos" da literatura infantil, os Contos de Fada, veremos que eles surgiram de histórias da tradição oral. Os maiores clássicos da literatura grega, A Odisséia e A Ilíada, também têm a mesma origem nessa tradição oral. São histórias contadas e recontadas oralmente que fazem parte da cultura e que são depois registradas na forma escrita. Os irmãos Grimm pesquisaram e recolheram contos por meio de viagens a diversas regiões da Alemanha e tiveram o cuidado em não deturpar essa tradição oral. A passagem do oral para o escrito exige, sem dúvida, uma sensibilidade e domínio da língua que são características dos grandes escritores.
Os contos de fada apresentam uma mesma estrutura narrativa dos chamados contos maravilhosos (que são considerados literários). O russo Wladimir Propp estudou a morfologia do conto e apresentou cinco características presentes nos contos maravilhosos e também nos contos de fada: a aspiração, viagem, obstáculos, uma mediação e a conquista do objetivo.
É bom lembrar também que grandes obras literárias como As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Aventuras de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, não foram escritas para crianças, possuem todas as características de outras obras literárias e são adotadas atualmente como literatura infanto-juvenil.
A literatura infantil, além disso, apresenta os fatores estruturais que aparecem em qualquer obra literária: um narrador, um foco narrativo, a história, os personagens, o espaço físico e temporal, uma linguagem usada literariamente e um destinatário da sua comunicação: o leitor.
Por tudo isso, é importante estudar as obras de literatura infantil pelas suas características literárias:

"...ao ser ligada, de maneira radical, a problemas sociais, étnicos, econômicos e políticos de tal gravidade, a literatura infantil e juvenil perde suas características de literariedade para ser tratada como simples meio de transmitir valores. Ou é lida exclusivamente em função de seus estereótipos socias.
Daí a urgência que vemos na conscientização e organização de uma crítica literária para a literatura infantil brasileira."
(COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática.
São Paulo: Moderna, 2000. Página 58)

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